sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sala de espera...

Depois de passar a tarde inteira providenciando tudo para fazer uma pequena cirurgia, que vou fazer amanhã, ainda faltava um ultra-som, aquele mesmo exame que fiz várias vezes, quando esperava pelo meu João e pela minha Maria. Naquela época o medo e a ansiedade que eu senti nem se compara com o que sinto agora. A emoção ao escutar pela primeira vez o coraçãozinho dos meus filhos baterem dentro de mim, é bem diferente das batidas do meu coração, sentada nesta sala de espera, lotada, depois de uma maratona de exames, suspeitas e resultados, debaixo de um calor infernal, e ainda sem saber o que vai acontecer.
Observando os casais, ali presentes, pude identificar, qual era a situação de cada um deles. Uma quase menina me chamou atenção, pela forma como ela segurava a barriga, que até então só ela e seu companheiro, nem tão menino, mas pra lá de emocionado, acabavam de saber que abrigava, sem sombra de dúvidas, o primeiro filho. O corpo esguio, e bem contornado, que até ontem devia estar suando em alguma academia da cidade, o rosto liso e lindo, sem nenhuma marca de expressão ou decepção, com a ponta do nariz perfeito, vermelho, porque com certeza ela chorou lá dentro, no momento da constatação, começava a se transformar, por enquanto só na cabeça dela, e nas mãos que já protegia, por instinto, maternal, aquele pequeno ser. E aqui fora, se esquecendo de todo o resto, ignorando sem querer, sem perceber, e sem se importar com nada, nem mesmo com a sala de espera lotada, ela abraçou o seu companheiro por várias vezes, beijou, se curvou deixando aparecer boa parte do corpo, que um minúsculo vestido guardava, com se agradecesse a ele pela felicidade que sentia.
Em outro canto da sala, outra mulher com uma barriga enorme, ao lado do marido estarrachado na cadeira, com uma cara de quem comeu e não gostou, esperavam pelo atendimento, e com toda certeza não esperavam pelo primeiro filho. Durante todo o tempo que eu estive ali, pude observar, (adoro tentar adivinhar o que vai na mente das pessoas), que eles não trocaram uma palavra e nem um gesto, a não ser o cutucão que ela deu nele no momento em que a secretária falou seu nome. Ele se levantou, meio desajeitado, ajeitou a calça que caia, e lá foram eles, lado a lado, ainda sem se tocarem, constatarem o que me pareceu, não ser mais nenhuma novidade.
Vi uma grávida sozinha, falando ao celular, andando de lá pra cá, com seu barrigão, debaixo do vestido florido, totalmente independente e linda, com pressa de acabar logo com aquilo, porque com certeza tinha mais o que fazer. Não me pareceu que ela sentia falta, ou precisava de alguém naquele momento.Vi também um casal, em que a mulher de meia idade, aparentemente bem resolvida e bem vestida, sem medo e sem receio, com um sapato simplesmente maravilhoso, daqueles de bico bem fino, combinando com uma bolsa de couro que mesmo de longe pude ver que era legítimo, lia seu livro, já com o auxílio de um lindo e leve óculos de aro dourado, enquanto o marido resolvia algo no seu computador de mão, não se falaram, não se olharam, não se tocaram, e até o momento em que eu fui embora, eles estavam exatamente na mesma posição, esperando, como se ninguém mais esperasse por eles, a secretária de uniforme impecável falar o nome dela.
Levando em consideração tudo o que vi naquela tarde, naquela sala de espera, exceto o companheiro da menina de vestido curto, segurando a barriga que ainda nem cresceu, nem me importei muito, com o “meu”, que me deixou na porta, me ligou várias vezes, pra saber se ia demorar muito, atendeu o meu chamado pelo celular, quando eu terminei, foi me buscar, e quando eu entrei no carro, sem achar necessário me olhar, me perguntou como foi, quase por obrigação, e por último fez a pergunta que realmente estava interessado em saber a resposta... quanto???
E eu ainda encantada com a cena da quase menina, beijando o seu companheiro sem nenhum constrangimento, fingi não entender, e dei a resposta para a pergunta que eu queria ter ouvido... fique tranqüilo... vai ficar tudo bem...
Seguimos em silêncio, como a mulher dos sapatos lindos e o homem com seu computador de mão...

Carla Pianchão

6 comentários:

Camaleoa disse...

Carla, maravilhoso seu texto, parabéns!
Um grande abraço.

Mara Gusmão disse...

Querida Carla, como nos decepcionamos não?! Mas é assim, "eles" acham que já estão casados, com filhos, cachorro, contas pra pagar... tá tudo certinho! Mas queremos mais não é mesmo? As vezes dói, as vezes não importa! Que pena que o seu marido não consiga visualizar a pessoa especial que vc é! Espero que esteja tudo bem com a sua saúde e que Deus ilumine sempre o seu caminho! Beijos!!

pcpriscila disse...

Carla, estes comportamento que vc descreveu não dependem do tempo de relacionamento nem da quantidade de filhos, mas unica e exclusivamente do relacionamento do casal. Neste ponto devo dizer que sou afortunada : Faço 22 anos de casada em Março e meu marido me liga todo dia na hora do almoço, e antes de sair do trabalho perguntando se preciso de algo, quando saímos sempre pega minha mão, sempre me beija ao sair para o trabalho e antes de dormir..Me faz cafuné e massagem, adora me comprar coisinhas ( perfuminhos, cremes, docinhos..).Temos um relacionamento de amor, amizade, cumplicidade e somos uma equipe. Ele me ajuda em tudo, lava louças e roupas, estende no varal, compras de supermercado e feira, sempre carrega as sacolas e até minha bolsa quando pesa....
Acredito, isso existe. Eu e meu marido somos um exemplo vivo...

Fábio disse...

Nossa Carla, estou a chorar... perdi pela segunda vez, aos 29 anos meu tão sonhado bebê esta semana.
Também tenho um marido especial como o da menina de vestido curto... graças a Deus.
Quantas realidades não???!!
E assim segue a vida.
Belo texto.

Serões da Inês disse...

Olá Carla,
descobri os seus blogs através da sua página do cuteclub, do qual também sou membra muito sem prática ainda.
De lá fiquei encantada com os seus textos, por isso não exitei e vim logo que pude dar uma espreitadela.
Tem um problema, estou no trabalho (trabalho num escritório), aqui em Lisboa são 16,20h e os seus textos deixaram-me com a lágrima a querer romper com uma força danada... e já romperam... e ainda só vou no 3º ou 4º texto. E as colegas a passarem. Se não vir inconveniente, que acho que não, vou colocá-la nos meus links e assim não vou perder pitada dos seus textos que me comoveram tanto, talvez porque também tenha os meus problemas mas não tenho coragem para os falar abertamente.
Enquanto não ganho coragem para falar de mim, vou acompanhando os seus desabafos e vou-me identificando com algumas coisas.
Beijinho enorme e já sabe que tm aqui uma fã
Inês

Carla disse...

Carla, quando leio o que você escreve, me dá a impressão que se conecta uma máquina que lê seus pensamentos. É de uma coesão suas palavras que me impressiona. O texto é realista, assim como me parece que você é, apesar de também ser triste. Quantas de nós não passam pelo mesmo.