quinta-feira, 4 de abril de 2013

O vaso de barro, a moça leve e eu


Oi Ana! - Eu disse ao entrar na floricultura perto da minha casa.
Na verdade fui ao sacolão, e pra falar mais verdade ainda, fui pagar uma conta.
Bom, já nem lembro o que eu fiz primeiro, mas é sempre assim, parece que sou atraída para dentro das floriculturas e quando  assusto já estou lá me deliciando com o cheiro de terra molhada e tentando entender porque todas aquelas pessoas não estavam radiantes. Afinal  sempre achei que trabalhar com terra, flores de todos os tipos, é como ganhar na loteria. Acha que estou exagerando, levando em conta a minha paixão pela natureza? Então tá, digamos que poder trabalhar com flores seja como ganhar na loteria junto com doze ou dezessete  pessoas, mas essa é outra história.
-Eu queria um vasinho de barro, por favor.
- Um minutinho que vou pegar, e lá se foi a Ana por entre as flores (compro sempre com ela por me parecer  a mais leve), e realmente um minutinho depois, lá vem ela com um vaso de barro em cada mão, um mais rebuscado que o outro, envernizado...
Por se tratar da Ana, a moça leve, escolhi bem as palavras:
- Eu queria algo mais rústico (eu queria mesmo era um vaso velho, tipo aqueles esquecidos em um canto qualquer, na casa de uma vó já cansada), sem verniz...
- Ah que pena, lamentou Ana, não temos assim como está querendo.
Eu não queria duvidar, porque era a Ana, a moça leve.  Então não tive outra escolha. Inconformada, me despedi e fui saindo com uma certezinha de que ainda não estava tudo perdido, e não estava mesmo. Avistei o tal vaso, jogado de boca pra baixo sem nada plantado, velho e esquecido, só não sei se por uma vó cansada.
- E aquele ali? -Perguntei com os olhos de quem avistou um socorro, quando tudo parecia perdido.
- Esse aqui?- Perguntou Ana quase não acreditando que era aquele.
-Está a venda?- Perguntei, e antes mesmo de ouvir a resposta, fui logo dizendo:
-Quero ele, qual o preço?
 Ainda sem acreditar, Ana, a moça leve,  recolheu o vaso abandonado de cima da terra, e foi tentando limpá-lo e retirar o lodo que já se formara, quando eu disse:
- Não precisa limpar, eu gosto assim.
Ela me olhou tentando disfarçar o espanto e pensando o que teria me levado à loucura.
Eu fiquei tão encantada, que ali mesmo pedi que ela plantasse uma gorduchinha (suculenta) e fui embora maravilhada com a arte que a natureza fez no vaso abandonado. E a moça leve  da floricultura, a tal Ana, me acompanhou até o portão, talvez para se certificar de que eu estava mesmo sozinha como uma senhora “normal”, ou se não havia um enfermeiro na porta esperando para me levar embora.
Nenhum julgamento ou pensamento da moça leve me impediu de caminhar pela rua, de volta pra casa, alegre e feliz, como uma criança que acabou de ganhar um doce, segurando cuidadosamente meu vaso de barro, velho,  abandonado e  manchado de lodo.
Pois é, depois de vários dias, abandonado e esquecido, continuo sem saber se por uma vó cansada, o velho vaso de barro ganha um lugar de destaque.
 Todas as manhãs, ao chegar em  meu cantinho, para mais um dia de trabalho, lá esta ele, me esperando, e que Ana, a moça leve,  não me ouça, mas acho que ele estava me esperando na floricultura também.

Carla Pianchão