quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Maria...




Hoje quando terminei de escrever um texto... minha Maria... que fazia o seu dever de casa na mesa ao lado... disse... mãe lê pra mim?
Não fiquei surpresa porque ela sempre faz isso... ela nunca me interrompe quando estou escrevendo... e ela sempre sabe quando eu termino... e eu já me acostumei com a presença dela... muitas vezes percebo que ela me olha... como se quisesse advinhar meus pensamentos...
Não sei porque... o texto de hoje achei que ela não entenderia... ou quem sabe... inconscientemente... eu não queria... que ela entendesse...
Quem já leu alguns textos meus... com certeza percebeu que eu uso muito reticências... talvez nem seja correto gramaticalmente falando... mas isso pra mim funciona como algo que eu deixo no ar... paradinhas para pensar... como se em outro momento eu fosse voltar naquele assunto com mais calma... ou então como se eu estivesse deixando um espaço para quem quiser entrar e se misturar com as palavras... fazendo parte, se encontrando, e porque não, se identificando com elas...
Isso já virou quase um vício... que precisa ser corrigido... ou não... como diz o queridíssimo... Caetano Veloso.
É que vou viajando nas palavras... me encontrando, me perdendo... deixando brechas... aberturas... espaços... para quando, nem eu mesma, sei o que dizer...
Bom... voltando a minha Maria... eu terminei de ler... olhei para ela e vi uma interrogação gigante em seus dois olhinhos lindos...
Na tentativa de amenizar a situação difícil, que eu, no auge da minha inocência, achei que ela se encontrava... perguntei se ela havia gostado...
Achei que ela responderia que sim... sem titubear... como das outras vezes... e eu continuaria minha rotina... achando que ainda não é hora de fazer ela pensar... ou questionar... sobre questões que virão com o tempo...
Mas dessa vez... foi diferente...
Ela sempre me surpreende...
Ela pensou... olhou-me... e com aquela voz doce que já faz parte da sua imagem... passou a mão nos cabelos... ajeitou-se na cadeira... passou a mão no meu ombro...como se quisesse me preparar para o que estava por vir... e sem me olhar nos olhos... com uma pontinha de receio... e como se não tivesse o direito de dizer o que realmente pensava... respondeu...
Mãe... você usa umas palavras muito fortes...!!!
E eu fiquei sem palavras... sem ação...
Claro que eu poderia ter me aprofundado... procurado saber o que ela chama de “palavras fortes”, afinal ela só tem oito anos... quase nove...(ela sempre me corrige)... mas eu não fiz isso... não consegui... não naquele momento... talvez um outro dia... não hoje... não agora...
Ela foi tão precisa... tão intensa... que me pegou de surpresa...
Apenas sorri... e respondi... pode ser filha...
E ela, sem contar com qualquer explicação da minha parte, continuou o que estava fazendo... voltou a ser criança... e não disse mais nada... como se tivesse dito tudo...
E disse...
E eu fiquei ali... no auge da minha maturidade... pensando nas palavras... muito mais fortes que as minhas... ditas por uma criança... de apenas oito anos...
minha filha...
minha companheira...
Minha Maria...
...

Carla Pianchão

2 comentários:

Milena Fahel disse...

Parabéns pelo blog, moça!
Até a próxima...
=]

P.s: Sua filha parece em muito com você, rs!

Serões da Inês disse...

Uma menina linda, com a idade do meu filho, 8 anos também.